quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Hoje vamos de música.
Estava lendo  na Superinteressante algumas cartas testamento e ví essa de Beethoven, que resolvi dividir com vocês.
Gênio até o fim!


“Ó homens que me tendes em conta de rancoroso, insociável e misantrôpo, como vos enganais. Não conheceis as secretas razões que me forçam a parecer deste modo. Meu coração e meu ânimo sentiam-se desde a infância inclinados para o terno sentimento de carinho e sempre estive disposto a realizar generosas ações; porém considerai que, de seis anos a esta parte, vivo sujeito a triste enfermidade, agravada pela ignorância dos médicos. Iludido constantemente, na esperança de uma melhora, fui forçado a enfrentar a realidade da rebeldia desse mal, cuja cura, se não for de todo impossível, durará anos talvez! Nascido com um temperamento vivo e ardente, sensível mesmo às diversões da sociedade, vi-me obrigado a isolar-me em uma vida solitária. Por vezes, quis colocar-me acima de tudo, mas fui então duramente repelido, ao renovar a triste experiência da minha surdez! Como confessar esse defeito de um sentido que devia ser, em mim, mais perfeito que nos outros, de um sentido que, em tempos atrás, foi tõa perfeito como poucos homens dedicados à mesma arte que eu possuíam! Não me era contudo possível dizer aos homens: ‘Falai mais alto, gritai, pois eu estou surdo’. Perdoai-me se me vêdes afastar-me de vós! Minha desgraça é duplamente penosa, pois além do mais faz com que eu seja mal julgado.

Para mim, já não há encanto na reunião dos homens, nem nas palestras elevadas, nem nos desabafos íntimos. Só a mais estrita necessidade me arrasta à sociedade. Devo viver como um exilado. Se me acerco de um grupo, sinto-me preso de uma pungente angústia, pelo receio que descubram meu triste estado. E assim vivi este meio ano em que passei no campo. Mas que humilhação quando ao meu lado alguém percebia o som longínquo de uma flauta e eu nada ouvia! Ou escutava o canto de um pastor e eu nada escutava! Esses incidentes levaram-me quase ao desespero e pouco faltou para que, por minhas próprias mãos, eu pusesse fim à minha existência. Só a arte me amparou! Pareceu-me impossível deixar o mundo antes de haver produzido tudo o que eu sentia me haver sido confiado, e assim prolonguei esta vida infeliz. Paciência é só o que aspiro até que as parcas inclementes cortem o fio de minha triste vida. Melhorarei, talvez, e talvez não! Mas terei coragem. Na minha idade, já obrigado a filosofar, não é fácil, e mais penoso ainda se torna para o artista. Meu Deus, sobre mim deita teu olhar! Ó homens! Se vos cair isto um dia debaixo dos olhos, vereis que me julgaste mal! O infeliz se consola quando encontra uma desgraça igual à sua. Tudo fiz para merecer um lugar entre os artistas e entre os homens de bem.
Peço-vos, meus irmãos (Karl e Johann) assim que eu fechar os olhos, se o professor Schimith ainda for vivo, fazer-lhe em meu nome o pedido de descrever minha moléstia e juntai a isto que aqui escrevo para que o mundo, depois de minha morte, se reconcilie comigo. Declaro-vos ambos herdeiros de minha pequena fortuna. Reparti-a honestamente e ajudai-vos um ao outro. O que contra mim fizestes, há muito, bem sabeis, já vos perdoei. A ti, Karl, agradeço as provas que me de este ultimamente. Meu desejo é que seja a tua vida menos dura que a minha. Recomendai a vossos filhos a virtude. Só ela poderá dar a felicidade, não o dinheiro, digo-vos por experiência própria. Só a virtude me levantou de minha miséria. Só a ela e à minha arte devo não tere terminado em suicídio os meus pobres dias. Adeus e conservai-me vossa amizade. Minha gratidão a todos os meus amigos. Sentir-me-ei feliz debaixo da terra se ainda vos puder valer. Recebo com felicidade a morte. Se era vier antes que realize tudo o que me concede minha capacidade artística, apesar do meu destino, virá cedo demais e eu a desejaria mais tarde. Entretanto, sentir-me-ei contente pois ela me libertará de um tormento sem fim. Venha quando quiser, e eu corajosamente a enfrentarei. Adeus e não vos esqueçais inteiramente de mim na eternidade. Bem o mereço de vós, pois muitas vezes, em vida, preocupei-me convosco, procurando dar-vos a felicidade. Sêde felizes, Helligenstadt, 6 de outubro de 1812”

domingo, 17 de junho de 2012

Para começar bem a semana, e lembrar que Leminski não é só a Pedreira, mas o grande nome que o Paraná exportou para o mundo!




" Leite, leitura
letras, literatura,
tudo o que passa,
tudo o que dura
tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
tudo,tudo,tudo
não passa de caricatura
de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura".


(Paulo Leminski.)

sábado, 16 de junho de 2012

Bloomsday





James Joyce

O livro relata a odisséia do personagem Leopold Bloom durante 16 horas do dia 16 de junho de 1904. A obra é considerada um dos marcos da literature contemporânea universal. Um livro denso, com enredo intrincado e poético, uma espécie de releitura do mítico Ulisses da Ilíada e Odisséia, de Homero. Tudo gira em torno de Stephen Dedalus (Telêmaco), e o casal Leopold Bloom (Ulisses) e Molly (Penélope).
James Joyce Também é autor de Retrato do Artista Quando Jovem e Finnegans Wake.




quinta-feira, 14 de junho de 2012

quinta-feira, 31 de maio de 2012

A história da leitura




Vivemos numa época em que o conhecimento nunca foi tão acessível. A comunicação vive uma era de ouro marcada pela popularização dos meios, que começou com a invenção da Internet. Marco que rivaliza apenas com a invenção da imprensa por Gutemberg em termos de importância para a leitura. O acesso aos livros é mais fácil, há mais bibliotecas e os livros se tornaram mais populares. Vivemos numa democracia que não censura o que devemos ou não ler. Além disso, segundo o IBGE a taxa de analfabetismo caiu de 20,1% para 13,6% entre 1991 e 2000. 
 A história da leitura começa com a leitura que os primeiros homens faziam do tempo, do sol, da passagem das estações. O retrato desse cotidiano se transformou no primeiro tipo de escrita feita por esses ancestrais do homem moderno, as imagens feitas nas paredes das cavernas que habitavam. Os desenhos evoluíram para a escrita pictográfica, que deram origem a primeira escrita conhecida, a cuneiforme, desenvolvida pelos sumérios há cerca de seis mil anos. Essa escrita evoluiu e expandiu geograficamente transformando-se em outros alfabetos como o logográfico chinês e o alfabeto latino, usado no português.
 Das placas de argila aos e-books, foram necessários milênios para que a leitura fosse popularizada e deixasse de ser um hábito de poucos privilegiados com acesso à instrução.
Na Idade Média e começo da Renascença, aprender a ler era exclusivo da aristocracia e da alta burguesia. As crianças eram iniciadas nas letras por suas amas, e depois contratava-se um tutor particular, para os meninos, enquanto que as meninas eram educadas por suas mães.
O método que vigorava na época era o escolástico, que consistia em treinar o estudante a considerar um texto de acordo com critérios preestabelecidos e aprovados (MANGUEL, 1997, p.92). Seguindo uma ordem em que primeiramente era analisada a gramática, em seguida o sentido literal do texto e por último a discussão de opiniões de comentadores aprovados. Os textos nunca eram deixados abertamente à interpretação dos alunos.
 Nas populares escolas de latim, após aprender a ler e escrever, os alunos se dedicavam ao trivium: estudo da gramática, retórica e dialética. Os livros eram caros e apenas o professores os possuíam, os alunos copiavam do quadro negro. Nessa época a compreensão não era uma exigência do conhecimento e a ortografia não era uniforme. Pode-se dizer que foi nessas escolas que os alunos começaram a se tornar leitores em língua estrangeira, o latim.

Após invenção da imprensa, que disponibilizou mais os livros, surge o método humanístico, onde os leitores deviam ler por sí mesmos, ou seja, eram incentivados a fazer suas próprias interpretações. Para os alunos, essa transição os dava a autoridade de leitores individuais. Como bem captou um anônimo quando disse:

“Ao leres livros, deves ter o hábito de dar mais atenção ao sentido do que às palavras, concentrar-se antes no fruto do que na folhagem”. (MANGUEL, 1997, p.102).

Segundo Manguel, aprender a ler é visto pelas sociedades letradas como um rito de passagem (1997, p.89). “Quando aprende a ler a criança é admitida na memória comunal por meio de livros, e se familiariza com o passado comum que ela renova, a cada leitura”.


* Esse texto é uma parte da monografia realizada sobre Leitura Extensiva no Aprendizado de Língua Inglesa. Em caso de citação, favor citar a fonte.
 ROSSONI, Fábia. Leitura Extensiva no Aprendizado de Língua Inglesa

quarta-feira, 23 de maio de 2012



“Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.”


Esse é um trecho, magistralmente escrito por Vladimir Nabokov, que para mim exprime a essência dessa obra polêmica. O modo como Nabokov escolheu as palavras e teceu as frases, nos leva à mente de uma pessoa obcecada. O frenesi da descrição à simples menção do nome da amada. Até aí tudo bem, não tivesse a amada 12 anos e o amante 47.
O livro é narrado em primeira pessoa em tom de desespero, pelo obsessivo Humbert, o protagonista professor francês de meia-idade, que após vários colapsos nervosos decide tentar a vida na América. E é lá que ele se apaixona pela pré adolescente de 12 anos, filha da dona da casa onde ele aluga um quarto. 



Tem início aí a história pintada em tons de agonia e obsessão, de um homem que não consegue lutar contra seus desejos, por mais errados que sejam perante à sociedade. E que  culminaria em seu declínio, a prisão por assassinato, revelado pelo narrador já nas primeiras páginas. Do outro lado, Lolita. Retratada como a combinação de sedução feminina e ingenuidade infantil.
Desde o começo da leitura, o livro me prendeu de tal maneira que levei três dias para terminá-lo. Fiz outras pesquisas na web, discuti a história e sentimentos por ela causados com algumas pessoas, mas levei mais de dois meses para terminar esse post, pois foi o tempo que levei para processar Lolita.
Lolita é o tipo de história que está no imaginário coletivo. A palavra lolita entrou em nosso dicionário e virou adjetivo, sinônimo de menina pré adolescente, ninfeta. É um daqueles livros imortais, clássicos e únicos que fazem parte de um seleto grupo de obras que devemos ter na estante.
Vladimir Nabokov o escreveu no início dos anos 50 e teve dificuldades em achar uma editora corajosa o suficiente para publicá-lo. Isso aconteceu somente em 1955, quando foi lançado por uma editora francesa na Europa. Era de se esperar que Lolita gerasse opiniões controversas:  alguns o celebraram como um dos melhores livros do ano; e outros o classificaram como pornografia e incentivo a pedofilia. Já dizia Oscar Wilde que  “ os livros que o mundo chama de imorais são aqueles que lhe mostram a sua própria vergonha.” 
O politicamente correto e moralista Estados Unidos, só se renderia a ele em 1958, onde rapidamente conquistou o topo das listas de mais vendidos. 
Ao longo dos anos teve duas adaptações cinematográficas, a primeira dirigida por Stanley Kubrick em 1962 com James Mason como professor Humbert,  e outra dirigida por Adrien Lyne em 1997 com Jeremy Irons.
É uma história capaz de gerar vários sentimentos no leitor, vários questionamentos, por vezes se sentir “dentro” da cabeça de um pedófilo e até simpatizar com ele em várias situações. E em outras ver a história sobre o ponto de vista de Lolita.
 O próprio autor disse que é a história da velha Europa corrompendo a nova América, ou a nova América corrompendo a velha Europa.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Manguel, Manguel, Manguel....

Isso é tāo lindo que escolhi pra ser a citaçāo de abertura da minha monografia sobre Leitura em Língua Inglesa.


Ler em voz alta, ler em silêncio, ser capaz de carregar na mente bibliotecas intimas de palavras lembradas, são aptidões espantosas que adquirimos por meios incertos. Antes que essas aptidões possam ser adquiridas, o leitor precisa aprender a capacidade básica de reconhecer os signos comuns pelos quais a sociedade escolheu comunicar-se, em outras palavras o leitor precisa aprender a ler.” 


Alberto Manguel em Uma história da Leitura, p.85